[137/1000] Goemon - Goemon
Lançado em 1985, “Goemon” foi o único LP do produtor e músico paulistano Rui Mifune, que adotou como nome artístico o de Ishikawa Goemon, lendário bandido japonês do século XVI. O disco foi gravado no Estúdio Vice Versa, do Rogério Duprat, em São Paulo. A distribuição foi pequena e não há registro de qualquer repercussão na época. Rui era uma figura conhecida entre a turma da Baratos Afins, fazia a ponte entre o Brasil e Japão, de onde levava e trazia álbuns remixados.
O contexto do lançamento é o Brasil de 1985, ano da primeira edição do Rock in Rio e de forte expansão comercial do rock nacional. Legião Urbana, Titãs, Ultraje a Rigor e outras bandas ocupavam um espaço crescente no mercado fonográfico, enquanto as grandes gravadoras ampliavam a produção voltada ao público jovem. Mas “Goemon” não se enquadra nesse modelo de expansão comercial.
Rui Mifune, que no ano seguinte viria a trabalhar em “Sampa Midnight”, do Itamar Assumpção, assina todas as dez faixas, sendo responsável por letras, músicas e vocais. A formação reúne André Fonseca na guitarra, André Gomez no baixo, Paulo Farath na bateria e Glauco Sagebin nos teclados. Fonseca era integrante da Patife Band, grupo importante na cena experimental e pós-punk paulistana dos anos 1980.
A combinação de gêneros é uma das características mais evidentes do álbum. O rock funciona como base, mas os arranjos incorporam elementos de funk, blues, soul e new wave. Os teclados de Glauco Sagebin têm papel relevante na construção do som, que não segue o modelo mais convencional do rock brasileiro de meados dos anos 1980. A presença de André Fonseca também aproxima o disco da produção mais experimental da cena paulistana, embora “Goemon” tenha características próprias e não possa ser reduzido a um desdobramento da Patife Band ou da Vanguarda Paulista.
A apresentação do próprio projeto artístico é marcada por uma visão deliberadamente agressiva da realidade. O release promocional associa as músicas à vida urbana, crise, marginalidade, sexualidade, religião e violência. A frase “música para dançar ao som da crise”, presente no material de divulgação, resume a estratégia de comunicação do álbum melhor do que qualquer tentativa de classificá-lo. “Eu Senti o Cão” é apresentada como um monólogo de um agressor diante de um delegado. “Paola” utiliza uma personagem associada, no material de divulgação da época, à figura de um travesti. “O Problema é o Lixo, Né?” trabalha com uma referência a Mark Chapman, assassino de John Lennon. O release promocional trata esses elementos como parte da provocação do projeto.
A escolha de personagens e situações extremas é recorrente no álbum e traz uma crítica que aparece por meio de personagens, trocadilhos, referências religiosas e situações de confronto. “Belzebu, Satã, Tinhoso” é associada a uma relação entre cristianismo e ditadura. “Bom Guru” trata da instabilidade e da vaidade de figuras transformadas em ídolos. O hit “Cachaça, Rock e Banchá” concentra parte da identidade proposta pelo álbum. A expressão combina um elemento associado à cultura brasileira, o rock e referência japonesa. A mistura funciona principalmente como uma definição da persona artística de Goemon, que combina sua ascendência japonesa com referências da cultura urbana brasileira e da música popular internacional.
“Goemon” registra uma experiência singular da cena musical paulistana de 1985. A produção reúne músicos profissionais, utiliza uma combinação pouco convencional de gêneros e apresenta um repertório construído em torno de personagens e temas que não correspondiam ao padrão dominante do rock brasileiro comercial daquele período. Sua circulação restrita e a documentação escassa fizeram com que o álbum permanecesse fora das narrativas mais conhecidas sobre o rock nacional dos anos 1980.
A existência do LP amplia esse quadro histórico. A cena brasileira daquele período não se limitava às bandas que chegaram às grandes gravadoras, às rádios e aos festivais de grande público. “Goemon” é um dos registros que permitem observar essa produção paralela: um álbum lançado por uma estrutura pequena, com músicos ligados à cena profissional da cidade, uma identidade artística muito definida e pouca continuidade documental após seu lançamento.

