[133/1000] Gilberto Gil - Refazenda
Faixa 10 - Lamento Sertanejo
Num corredor de escola particular de Lagos, uma adolescente vai andando ao lado do namorado. Os amigos dele falam de passaportes duplos, viagens para o exterior, o inglês que se aprende com sotaque em colônias de férias americanas. Ela ouve. Ela quase diz que não sabe como alguém pode viajar com o passaporte da mãe, porque a mãe dela nem tem passaporte. Mas não diz nada.
Chimamanda Ngozi Adichie escreve esse silêncio com uma exatidão doída e sensível em Americanah. Ifemelu, a jovem nigeriana que migra aos EUA para cursar a Universidade, não é discreta nem apagada. A questão central e sutil não trata de uma ausência de voz, mas algo entre ela e a fala dela que não tem nem nome, é quase como a textura de uma película.
Essa camada fina é a diferença que existe quando o pai de Ifemelu perde o emprego e a casa começa a contar os dias até o aluguel, quando a mãe sustenta tudo sozinha, quando a vaga na boa escola veio do mérito da prova e não do bolso da família. A pobreza silencia porque existe sempre uma percepção de que as suas palavras ocupam um espaço que não lhe pertence.
Mano Brown já falou sobre isso em diversas entrevistas, também com um pertencimento e sensibilidade que só é possível de ter se você já viveu aquilo. O que ele identifica, em várias formas ao longo de anos, é que o pobre chega ao mundo já endividado em termos de exposição - que se expor custa mais para quem vem de baixo porque o risco é outro. A classe média tem seguro. O pobre que sobe ao palco e falha, volta para o andar onde não há elevador. Então ele aprende desde cedo a não subir (ou a subir só depois de ter certeza de que não vai cair, o que é quase a mesma coisa). A vergonha de se expor, nesse caso, é uma estratégia de sobrevivência que acaba virando a sua postura de vida.
O homem periférico não é quieto porque não tem o que dizer, mas porque o custo de falar foi calculado e considerado alto demais, repetidas vezes, por gerações. Esse cálculo se prende no corpo antes de chegar à consciência. É exatamente o que Ifemelu sentiu no corredor, um freio que funcionou antes que ela chegasse à decisão de falar.
Em Memórias do Subsolo, Fiódor Dostoiévski construiu um personagem que é a versão fermentada desse silêncio, que é o que acontece quando essa película não é quebrada por décadas, por uma vida.
O homem do subsolo é um funcionário público de meia patente em São Petersburgo. Inteligente, letrado, absolutamente incapaz de se posicionar no mundo social. O livro estrutura sua incapacidade em três humilhações acumuladas, cada uma revelando uma camada diferente do problema.
A primeira é a cena do oficial. Durante dois anos, o protagonista frequenta a Avenida Nevski e cada vez que o oficial da guarda passa, empurra-o para o lado sem sequer olhar para ele, como se empurrasse um obstáculo inanimado. O homem do subsolo planeja um acerto, sonha com a cena em que estará cara a cara e não vai ceder espaço, vai bater de ombro no oficial e restituir sua dignidade. Depois de meses planejando, ele finalmente dá o encontrão. O oficial não percebe. Segue andando. O protagonista vai para casa e escreve que ganhou.
A segunda é o jantar com os ex-colegas do colégio, reunidos para homenagear Zverkov, um sujeito fútil que está partindo para o interior. O homem do subsolo não foi convidado, se convida, chega mais cedo, fica invisível durante o jantar inteiro, tenta entrar em cada conversa e é desviado com uma facilidade que é quase cortesia, que é a pior forma de ser ignorado, aquela que não admite resposta porque não houve agressão clara, apenas indiferença. Ao final, bêbado de ressentimento, ele os segue até um bordel onde vai encontrar Liza.
A terceira humilhação é a mais complexa e a que Dostoiévski usou para mostrar o que o silêncio estrutural faz com a capacidade de amar. Diante de Liza, o homem do subsolo faz o único movimento que sabe: ele ocupa o papel do superior. Faz um discurso comovente sobre a miséria da vida dela e como ela pode ainda escolher outro caminho. Liza acredita. Ela vai até o apartamento dele. E quando ela chega com ternura genuína, quando o amor aparece como possibilidade real, ele a humilha e a expulsa. Porque ele não sabe mais receber. Porque décadas de não conseguir falar o tornaram incapaz de suportar que alguém o ouça.
O homem do subsolo escreve: “Tenho vergonha de mim mesmo. O homem consciente em excesso é uma doença.” A consciência sem ação gera raiva. E a raiva sem saída gera crueldade consigo e com quem está perto. O subsolo, claro, é o acúmulo de tudo que não pôde ser dito, que não pôde ser pedido, que ficou fermentando na garganta enquanto o corpo aprendia a não subir ao palco.
“Lamento Sertanejo” foi escrita por Gilberto Gil e Dominguinhos, em 1973. É uma música sobre desajuste e o que acontece quando um corpo é colocado num lugar diferente do seu. A letra inteira funciona pela repetição de um advérbio: quase.
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado
E então:
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão boiada caminhando a esmo
O “quase” é a palavra que faz o texto inteiro. Não é “não saio”, “não tenho amigos”, “não falo”, é “quase”. Há saída, há amizade possível, há fala pra ser dita. Mas alguma coisa fica no meio do caminho, entre a possibilidade e a ação. Uma película, um freio que funciona antes da decisão. Um cálculo de risco que o corpo já produziu.
O diagnóstico, nesse caso, é de origem: por ser de lá. Da caatinga, do roçado, do interior - de um lugar que não é este lugar. É o homem do subsolo antes de fermentar esse silêncio. É Ifemelu andando calada no corredor de Lagos. É o mano da periferia que não sobe ao palco porque o palco foi construído para outra pessoa.
A grandeza de Gil e Dominguinhos nessa música é justamente o de não resolver o lamento, que é repetido com a clareza precisa de quem com certeza olha de dentro: eu quase não falo, eu quase não sei de nada. É quase tudo, sendo o “quase” um abismo. Mas o “quase” também é uma porta que ainda não se fechou: o homem do subsolo é o que acontece quando o “quase não falo” se transforma em “não falo”, para depois apodrecer em “falo para ferir”. É um exercício diário, constante, não descer ao subsolo, manter o “quase” aberto, não deixar o abismo se fechar por cima e virar abrigo.
Faixa 4 - Pai e Mãe
Logunedé é o orixá que o Candomblé criou para dar forma ao que a cultura ocidental está até hoje tentando negar: que dentro de cada ser humano coexistem masculino e feminino. Filho de Oxum e Oxossi, Logunedé carrega os dois universos sem precisar resolver qualquer conflito entre eles. Oxum é a senhora das águas doces, do ouro, do amor e da fecundidade, ou seja, da potência feminina em sua forma plena. Oxossi é o orixá da caça e da mata, da inteligência que persegue e captura, ou seja, a potência masculina em movimento. O filho deles não é metade de um e do outro: é os dois ao mesmo tempo. Reina entre as águas da mãe e as matas do pai. A maioria dos itãs não define se Logunedé é menino ou menina. E é claro que o Candomblé não esqueceu de decidir essa questão.
Gilberto Gil é filho de Logunedé e já compôs ao menos uma música para o seu orixá. Nos comentários do livro Todas as Letras, ele descreveu a composição como “uma homenagem a meu orixá, à sua natureza brincalhona, jovial, matreira, sestrosa e dengosa; ao seu caráter bissexual também, na referência a Oxum e Oxóssi, seus pais, igualmente homenageados.” Bissexual aqui como condição de vida, a de quem vem de dois e carrega os dois.
Em 1987, no programa Roda Viva, Gil foi perguntado sobre seu jeito “afeminado” nos shows. A resposta não poderia ter sido mais bonita: “Eu acho que tenho em mim um equilíbrio muito natural, muito visível, entre o homem e a mulher dos quais eu sou filho. Acho que contemplo tanto a minha mãe quanto o meu pai. E eu não posso negar que a minha mãe é uma mulher.”
Décadas depois, numa entrevista à revista Veja, a mesma ideia reapareceu com outra formulação: “Somos todos filhos de um pai e de uma mãe, o resultado de uma junção de genes de um e de outro. Portanto, somos todos bissexuais. Agora, o quanto e como isso influencia na condição masculina ou feminina e no exercício da própria sexualidade, aí reside uma variação infinita de possibilidades.”
A coerência entre as duas falas, separadas por trinta e tantos anos, é de quem tem a consciência clara de que ser filho é carregar os dois, pai e mãe, dentro de si. O que o Candomblé formulou miticamente em Logunedé, Gil articulou biográfica e filosoficamente quando fala de si mesmo.
Em 1975, no disco “Refazenda”, Gil colocou tudo isso em uma música de uma delicadeza que só é possível existir quando a ideia já está completamente resolvida dentro de quem escreve.
Eu passei muito tempo aprendendo a beijar
Outros homens como beijo o meu pai
Eu passei muito tempo pra saber que a mulher
Que eu amei, que amo, que amarei
Será sempre a mulher como é minha mãe
“Pai e Mãe” é uma canção sobre aprendizado afetivo e a lentidão com que a gente descobre que os modelos de amor que carregamos têm nome e rosto, e que esses nomes e rostos são os primeiros que conhecemos. Beija-se um amigo como se beija o pai: com a mesma força protetora, o mesmo carinho que conforta, os olhos e o coração abertos para compreender. Ama-se uma mulher como se é amado pela mãe: com a mesma plenitude que supre uma falta.
A letra pede à mãe que explique ao pai:
Diga a ele que não se aborreça comigo
Quando me vir beijar outro homem qualquer
Diga a ele que eu quando beijo um amigo
Estou certo de ser alguém como ele é
É uma negociação dentro da família entre o que o pai teme e o que o filho aprendeu com ele sem que isso fosse verbalizado exatamente. O filho tornou-se capaz do amor masculino porque teve um pai. Então o beijo no amigo não é a negação do pai, mas a sua continuação.
Logunedé é uma divindade sobre completude e o que se torna possível quando não se rejeita metade do que se é. A cultura que produz esse mito há séculos sabe o que leva tempo para as culturas que o suprimem entenderem: que masculino e feminino são heranças que cada pessoa recebe inteiras, dos dois lados, e que passa a vida inteira aprendendo a integrar.
Alguém com sua força pra me proteger
Alguém com seu carinho pra me confortar.
Pai. Mãe. Os dois. Meu pai vai ler isto. É para ele saber que eu também sou feito dele. E que descobri isso, como Gil, antes nas palavras dele do que nas minhas. Minha mãe não vai ler. Mas as duas faixas deste disco também são dela. E que foi com ela que aprendi que toda película é fina o bastante para se atravessar.


que texto. nossa...
coisas lindas:
dostoiévski
chimamanda
gil
esse texto :)