[134/1000] Gilberto Gil - Refavela
Em janeiro de 1977, Gilberto Gil desembarcou em Lagos para participar do FESTAC 77, segundo Festival Mundial de Arte e Cultura Negra. A Nigéria vivia o auge do petróleo, Lagos crescia de maneira desordenada e o governo militar havia construído um enorme conjunto habitacional para receber artistas e delegações de dezenas de países africanos e da diáspora negra. Gil ficou hospedado ali. Ao olhar aqueles blocos de concreto, associou imediatamente a paisagem aos conjuntos do BNH espalhados pelas periferias brasileiras. E o nome do trabalho já estava ali, antes do disco: “Refavela”.
Gil já havia falado de baião, exílio, religião, tecnologia, amor e política, mas “Refavela” marca uma mudança específica e essencial dentro da sua trajetória: a entrada definitiva da negritude como experiência urbana contemporânea no centro da sua obra. “Refavela” conecta Salvador, Lagos, Kingston e os bailes black do Rio de Janeiro. Foi nessa época em que Gil percebeu que havia uma circulação atlântica acontecendo: reggae jamaicano chegando ao Brasil, afrobeat nigeriano mexendo na música africana moderna, juventude negra carioca dançando soul music em subúrbios, blocos afro baianos reformulando o carnaval. O álbum tenta traduzir todo esse trânsito em dez canções (ou mais, na verdade. No show comemorativo aos 40 anos de “Refavela”, Gil tocou diversas outras canções da mesma época que ele considerava, segundo suas próprias palavras, “parte do universo do álbum”).
Na faixa-título, Gil observa o deslocamento da população negra pobre para conjuntos habitacionais, a ascensão simbólica promovida pela cultura black e a mudança estética das cidades brasileiras. Quando menciona o “black jovem” e o “Black-Rio”, ele está documentando um fenômeno ainda recente em 1977. Os bailes suburbanos cariocas reuniam milhares de pessoas ao redor de equipes de som como Soul Grand Prix e Furacão 2000, que surgiram nessa época, enquanto jornais e autoridades tratavam o movimento com suspeita política e racial. Gil foi um dos primeiros músicos de grande alcance nacional a perceber que aquilo era um movimento de pertencimento e orgulho.
Musicalmente, “Refavela” usa guitarra do funk americano, a percussão absorve estruturas africanas e o baixo trabalha em ciclos repetitivos próximos do reggae e do juju nigeriano. Em “Balafon”, por exemplo, a própria estrutura da música gira em torno do instrumento africano que dá nome à faixa. Em “Patuscada de Gandhi”, ele coloca o afoxé Filhos de Gandhy no centro da narrativa musical brasileira, algo ainda raro na MPB daquela época.
A inclusão de “Ilê Ayê (Que Bloco É Esse?)”, de Paulinho Camafeu, talvez seja um dos gestos mais importantes do álbum. O Ilê Aiyê havia sido criado apenas três anos antes, em Salvador, e enfrentava resistência aberta de setores da imprensa e do carnaval baiano por se apresentar como bloco exclusivamente negro. Ao gravar a música, Gil ajudou a levar aquela estética para o circuito nacional. O disco registra um momento específico da reafricanização do carnaval baiano, antes que ela se tornasse consenso cultural de hoje em dia.
Há também um contraste interno importante. “Refavela” alterna canções de forte dimensão coletiva com faixas íntimas e domésticas. “Sandra”, escrita para Sandra Gadelha, sua ex-mulher e mãe de Preta Gil, é uma canção de voz baixa no meio de um álbum povoado por movimentos de massa, deslocamentos populacionais e transformações raciais.
Em 1977, Gil vinha de “Refazenda” e ainda chegaria a “Realce”, formando a chamada trilogia “Re”. Se “Refazenda” olhava para o interior brasileiro e para uma ideia de recomposição rural, “Refavela” colocava uma lupa na diáspora africana e para os centros urbanos negros. Já “Realce” levaria parte dessas descobertas para um território mais pop e dançante.
Quase cinquenta anos depois, “Refavela” continua sendo um dos álbuns mais precisos de uma mudança cultural brasileira ocorrida na segunda metade dos anos 70: a consolidação da identidade negra urbana em diálogo direto com a África e com a diáspora atlântica. Gil percebeu esse movimento enquanto ele ainda acontecia e o traduziu nesse trabalho.
Se o disco de 68 é o meu favorito e Refavela, dono das mais belas canções, esse é com certeza o trabalho do Gil que eu mais ouvi e construí intimidade durante a vida. Em 2017, viajei de SP a Salvador por dois dias para assistir ao show comemorativo de 40 anos na Concha Acústica. Alguns anos depois, tive a sorte de estar em Salvador durante um Carnaval, subi a ladeira do Curuzu junto com uma turma alinhada demais, ouvindo milhares de vozes responderem “Ilê Aiyê!” para o eterno “Que bloco é esse?”, um dia antes de acompanhar os Filhos de Gandhy e toda a sua preparação no Pelourinho: turbantes sendo amarrados, cheiro de alfazema, beleza pura.
Ainda assim, “Babá Alapalá” é a minha favorita. Nela, Gilberto Gil transforma uma árvore genealógica em uma travessia espiritual: filho, pai, avô e bisavô procuram uns aos outros até que a linhagem humana desemboca nos ancestrais sagrados do Candomblé. “Egum” é o espírito dos mortos que permanece vivo no plano espiritual; “Babá” significa pai em iorubá; “Alapalá” remete a uma autoridade ancestral; e “Aganju”, manifestação ancestral de Xangô ligada ao fogo e à expansão da terra. “Machado Alado” e “Machado Astral” evocam o oxé, símbolo ritual de Xangô, convertido por Gil em imagem da continuidade negra atlântica. A música parte do luto individual para afirmar a ancestralidade como memória viva, porque no Candomblé, os mortos não desaparecem, eles continuam existindo como presença espiritual, histórica e coletiva. Por isso Gil encara a morte como passagem, e não como fim. Dói demais, mas o afeto segue em outro plano.


lindo!!
❤️❤️❤️❤️