[131/1000] Gilberto Gil - Gilberto Gil (1968)
Este é o primeiro texto de uma série de cinco dedicados a Gilberto Gil.
Rogério Duprat, meu filho! Eu sei que esse é um texto sobre o Gilberto Gil, vamos chegar lá, mas não teria como fazer tudo isso sem começar pelo Rogério Duprat - até porque a série Duprat só chegará no Catálogo daqui uns oito ou nove anos.
Tem uma entrevista clássica do Duprat para a MTV, eu nunca mais encontrei, em que ele diz: “o movimento mais importante da música popular brasileira é a Tropicália. E a pessoa mais importante da Tropicália é o Arnaldo Baptista. Arnaldo é a pessoa mais importante da música popular brasileira”. Isso não é verdade. Rogério Duprat é a pessoa mais importante da Tropicália. Rogério Duprat é a pessoa mais importante da música popular brasileira.
“O Disco Tropicalista” ou “Disco da Farda” ou “Frevo Rasgado”, de Gil, foi lançado em julho de 1968, junto com o primeiro do Mutantes, o colorido da Nara Leão e “Panis Et Circenses”, seguidos, em 1969, pelos dois primeiros da Gal, o segundo dos Mutantes, o da assinatura do Caetano e “Flamengo”, do Jorge Ben, todos arranjados pelo Rogério Duprat - nesses dois anos, ele ainda encontrou tempo para orquestrar trabalhos de Momento Quatro, Jair Rodrigues, Marilia Medalha, o Bando, Brazões e seus dois autorais, “A Banda Tropicalista” e a trilha de “Brasil Ano 2000”.
Provavelmente nunca existiu um artista que tenha produzido tantos álbuns históricos, que impactariam radicalmente o jeito de fazer e consumir música quanto Rogério Duprat entre 1968 e 1969 - muito mais do que os Beatles entre janeiro e agosto de 1969, e eles eram quatro.
A importância de “Frevo Rasgado” é dada, portanto. Mais do que isso, já vamos escancarar que esse é também o também melhor trabalho do Gilberto Gil. Isso, definitivamente, não é pouca coisa - ainda viriam pela frente Expresso 2222, Ogum Xangô, a trilogia dos (Re)s, Umbandaum.
O disco foi gravado num momento de aceleração política e cultural. O AI-5 ainda não havia sido decretado (isso aconteceria em dezembro daquele ano), mas a atmosfera já estava pesada. Poucos meses antes do lançamento do álbum, Caetano Veloso apresentara “É Proibido Proibir” no III Festival Internacional da Canção, no TUCA, em meio a vaias, gritos e objetos lançados ao palco. Gil estava ao lado dele naquela apresentação, tocando guitarra.
O LP absorve diretamente esse ambiente e funciona como um ponto de encontro de colisões: baião, rock psicodélico, marchas, samba, bolero, música nordestina, fanfarras, guitarras elétricas, orquestrações concretistas. A presença de Rogério Duprat é decisiva primeiro porque ele é o principal causador disso tudo, mas também porque os arranjos deixam de operar como “acompanhamento” ou “fio condutor” e frequentemente interrompem, ironizam e desconstroem a própria canção.
“Frevo Rasgado” abre o disco com metais e ritmo carnavalesco, mas a condução sonora está a mil léguas de distância da gravação tradicional de um frevo pernambucano. O arranjo cria cortes abruptos e entradas inesperadas. Gil vinha se aproximando do frevo desde sua convivência com músicos pernambucanos no circuito universitário e televisivo dos anos 60, mas aqui o gênero aparece filtrado pela estética tropicalista.
“Domingo no Parque”, embora lançada originalmente em 1967 no III Festival da Record, reaparece no álbum como peça central da narrativa tropicalista. A gravação original já havia causado impacto pela combinação entre berimbau, orquestra e guitarra elétrica dos Mutantes. A música narra um crime passional num parque de diversões com estrutura quase cinematográfica - quem não teve a sorte de estudar essa música na escola, perdeu uma chance rara de entender formas modernas de narrativa. Eu tive essa sorte gigantesca, com a melhor professora de História que alguém poderia ter, minha mãe.
Há uma curiosidade importante sobre “Domingo no Parque”: a participação dos Mutantes surgiu parcialmente por insistência de Caetano Veloso, que via na guitarra elétrica um elemento simbólico da ruptura tropicalista. Em 1967 e 1968, a guitarra havia se tornado objeto de disputa ideológica dentro da música brasileira. Setores nacionalistas da MPB viam o rock como submissão cultural aos Estados Unidos. Gil e Caetano passaram a utilizar justamente esse elemento como gesto de confronto.
Outro aspecto importante do álbum é a relação com a televisão. Em 1968, a lógica dos festivais televisionados influenciava diretamente a forma de compor e arranjar músicas. As canções precisavam produzir impacto imediato em auditório. E isso ajuda a explicar a presença constante de mudanças bruscas, entradas de metais, efeitos de surpresa e refrões expansivos.
Existe também um dado técnico curioso: apesar da associação imediata do tropicalismo ao experimentalismo radical, muitas gravações do disco mantêm estruturas harmônicas relativamente tradicionais. A ruptura aparece mais na combinação de elementos do que na destruição da forma da canção. Gil trabalhava frequentemente sobre baiões, sambas ou marchas convencionais, inserindo ruídos, guitarras, orquestrações dissonantes e referências pop em cima dessas bases.
Em retrospecto, “Gilberto Gil” acabou funcionando como síntese de um intervalo curto da cultura brasileira: os meses imediatamente anteriores ao endurecimento definitivo da ditadura. Este álbum registra um momento em que ainda havia circulação intensa entre televisão, vanguarda artística, música popular e experimentação política. Pouco depois, parte daquela cena estaria presa, censurada e exilada.
(obs.: eu nunca tinha ouvido as bonus tracks que aparecem nas DSPs, ouvi agora enquanto escrevia esse texto. “Barca Grande”, “A Coisa Mais Linda Que Existe”, “Questão de Ordem” e “A Luta Contra a Lata ou a Falência do Café” foram gravadas no mesmo ano e são espetaculares - “você também põe drogas no seu café?”).

