[119/1000] Gal Costa - Gal
Este é o primeiro texto de uma série de seis dedicada a Gal Costa.
Sempre fui apaixonado por música, desde muito novo. Passei por diferentes fases, mas a música foi o elemento central em todas elas. O presente de Natal que mais gostei na vida foi um violão: durante um mês, eu acordava de madrugada para abrir a caixa que ficava embaixo da árvore, tentava tirar algum acorde, guardava tudo de novo, colocava o violão de volta no mesmo lugar e voltava a dormir. As lembranças mais vivas que tenho da minha mãe são dela cantando; a única vez que fugi de casa foi para ver um show do Kiss, aos 13 anos. A música sempre esteve ali, o tempo inteiro.
Por outro lado, nunca soube o que “queria ser quando crescesse”. Achava incrível alguns dos meus colegas de escola que já sabiam que seriam advogados (criminalistas) aos 14 anos de idade. Eu nunca tive essa clareza.
Quando você vem de um bairro como o que eu cresci, a falta de referências faz com que você não conecte a sua paixão a uma profissão. Se você ama música, mas não sabe tocar bem, em nenhum momento você imagina que existe a possibilidade de poder trabalhar como produtor ou dentro de um estúdio ou em qualquer outra parte do ecossistema musical - você não sabe que ele existe e não conhece ninguém que tenha uma profissão dessas.
O jornalismo, por outro lado, é algo que chegava até a gente. E foi assim que eu decidi o que iria estudar. Eu não queria ser jornalista, queria ser jornalista musical. Entrei na faculdade e, no terceiro ano, surgiu a possibilidade de fazer uma matéria optativa com o então presidente da MTV Brasil, André Mantovani. Consegui me matricular, fingi ser bom aluno e consegui um estágio ao final do semestre. Começava ali a minha carreira no universo musical - que durou cerca de 5 anos, suficientes para mudar completamente a relação que eu pudesse ter com qualquer ídolo para o resto da minha vida.
Entre abraços afetuosos com Caetano Veloso e cervejas no quarto de um hotel com os Strokes, eu entendi muito rápido que de ídolo se mantém distância. Parece óbvio, mas, quando você está dentro da trincheira, é tudo muito sedutor e fácil de se perder. E foi assim que eu consegui preservar a minha sanidade, mantendo distanciamento dos meus ídolos e absolutamente nenhum deslumbramento.
Até conhecer a Gal Costa.
Eu não saberia explicar a razão do que aconteceu. Já tentei algumas vezes, mas nunca soube exatamente. Eu trabalhava na Deezer, que tinha um estúdio em que os artistas iam lá para gravar sessions ou entrevistas. Quando soube que a Gal iria, levei o meu LP “Gal” para ser autografado por ela. Lembro de ficar em dúvida sobre qual disco levar, mas esse fazia mais sentido - não é o meu favorito, mas é o que eu mais escutei - arrisco a dizer que foi o disco tropicalista mais importante para mim, mais até do que qualquer um dos Mutantes.
Ela estava no segundo andar, eu subi até lá e... travei. Tinha alguma coisa ali que não era normal, era quase física. Desci, pedi para alguém levar o disco para ela autografar, parece que ela falou algo do tipo “nossa, esse é raro, hein”. Depois ainda fomos tirar uma foto todos juntos. E tinha alguma coisa no olhar e na presença dela que eu nunca tinha visto e provavelmente nunca mais vou ver. Não era timidez, nem idolatria, nem nervosismo profissional. Era a presença dela mesmo, e o fato de que, pela primeira vez, minha distância profissional não deu conta do que estava em jogo.
Gal é uma entidade que eu respeito demais. E talvez o único caso em que a palavra “entidade” não me parece exagerada.



Tive talvez a mesmíssima sensação ao entrar em seu camarim, de maneira fortuita e totalmente ao acaso, no show do Recanto Escuro. Fui no embalo de um grupo de amigos que aproveitou uma brecha dada pela Sarah Oliveira que tinha acesso aos bastidores. Quando Gal entrou no espaço, eu simplesmente quis ir embora, não consegui ficar, foi tão estranho e ao mesmo tempo... divino... por assim dizer...